14 agosto 2018

Uma Vida Interrompida, Alice Sebold.




“A história de Susie Salmon, quando começa a se desvelar na sua frente, faz os compromissos, assim como os amigos, a família, a fome, o sono e até o celular tocando, parecerem bem pouco interessantes e menos urgentes. Os ossos do título em inglês não são os restos de Susie, a menininha que conta a história depois de morta. São a estrutura sobre a qual a vida é construída. Outra audácia é a de colocar Susie Salmon no céu. Sim, é para cima que vai nossa protagonista. E é para baixo que ela olha, com olhos atentos, enquanto conta a história de sua família, agora traumatizada, de como seu assassino planeja os detalhes minuciosamente para não ser descoberto, de como a polícia não tem nenhuma pista sobre como chegar a ele. A partir daí ela conta que, por estar inconformada com sua morte precoce, e um tanto entediada com a vida no Céu, decidiu acompanhar como sua família, amigos e o próprio assassino continuaram suas vidas após a tragédia.” | Alice Sebold – Ediouro – 353 Páginas – Ano 2003 (Originalmente em 2002) – Literatura estrangeira, ficção, drama, romance, família, sobrenatural.





Susie Salmon tem 14 anos quando é estuprada e brutalmente assassinada por seu vizinho. Lá do Céu, tentando se adaptar a sua nova condição, ela observa a vida daqueles que foram direta e indiretamente atingidos por sua perda: seus pais, amigos, conhecidos e até mesmo seu assassino, e como eles vão tentar reconstruir sua vida após o crime que muda a história da antes pacata cidadezinha de Norristown, na Pennsylvania.


Eu sabia que conhecia essa história! Esse livro chegou até mim através do Livro Viajante do Skoob (uma iniciativa muito legal na qual as pessoas emprestam livros entre si) e eu me interessei, primeiramente, porque gosto muito do tema “pós-vida”. Que surpresa quando li no prefácio o título original: “The Lovely Bones” (algo como Os Ossos Adoráveis, na tradução literal) e na hora reconheci como o livro que foi adaptado em 2009 para o cinema e chegou ao Brasil com o nome “Um Olhar do Paraíso” (Paramount Pictures, 2009). Engraçado que vi esse filme na época do lançamento porque foi bastante premiado e me lembro de não ter gostado nadinha. Mas o livro...

Quase dez anos depois entrei em contato com a obra original e só posso dizer que é muito emocionante! Engraçado que, pelo que pude recordar, o filme é bastante fiel. Fiquei me perguntando se hoje eu não gostaria, mas depois de espiar o trailer tenho a impressão de que funciona melhor como livro mesmo.

O relato de Susie é marcado pela saudade que ela sente de sua família, da escola e, o que achei muito legal, de uma curiosidade sobre questões da adolescência das quais ela estava começando a se aproximar, como o primeiro amor, sexo, a visão de um futuro profissional. O fato é que agora tudo isso ficou no passado e a garota tem que se adaptar a sua nova “vida”.

O que mais gostei no livro foi a relação dela com os irmãos: Lindsey, de 13 anos, e Buckley, de 4. Me identifiquei, pois também tenho uma irmã próxima em idade e, assim como Lindsey e Susie, com uma relação marcada pelo companheirismo. As duas são melhores amigas e, querendo ou não, é nela que Susie passa mais tempo de olho, algumas vezes até invejando as experiências que a irmã passa a ter.

Enfim, não quero me alongar muito, só posso dizer que recomendo fortemente a leitura (chorei!) para quem gosta desse tema. Por vezes parece que estamos lendo um romance policial, mas não é disso que se trata. O livro é cheio de personagens muito interessantes – dois dos mais importantes, para mim, são Jack Salmon, o pai da Susie, e Ruth Connors, uma colega de classe dela que tem um “sexto sentido”. É muito bonito acompanhar a superação e amadurecimento de todos os personagens durante os anos. E, é claro, acompanhar a caça da polícia ao Sr. Harvey, o vizinho que na verdade é um serial killer. Se, e como ele é descoberto, vocês terão que ler pra descobrir! 



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07 agosto 2018

Pergunte ao Pó, John Fante.



“História do Alter Ego do autor, o escritor Arturo Bandini. Filho de imigrantes, Bandini é um jovem pretenso a escritor que se sente excluído da sociedade. Ele quer escrever sobre a vida e o amor, mesmo não tendo muita experiência sobre ambos, e se apaixona por uma linda garota. O romance se passa na Los Angeles da década de 1930. Fante é um dos mais importantes nomes da literatura americana e seus livros influenciaram a geração beat e muitos escritores, entre outros, Charles Bukowski”. | John Fante – José Olympio – 208 Páginas – Ano 2004 (Originalmente em 1939) – Literatura estrangeira, romance, drama.


Arturo Bandini é um aspirante a escritor que anseia por se tornar reconhecido. Publicou um conto em uma revista certa vez e tem muito orgulho disso. Ele mora em um quarto pequeno num hotel, deve meses de aluguel, mente para a mãe e aparentemente não gosta de ninguém. Ou quase ninguém. Um dia ele conhece Camilla Lopez e desenvolve certa obsessão por ela. Assim, entre inúmeros rascunhos de novas obras e uma garçonete mexicana que não corresponde seu afeto, Arturo procura viver intensamente pela caótica Los Angeles da década de 30.

Não me perguntem como cheguei a esse livro. Eu sou dessas... vejo ou recebo uma indicação, leio uma sinopse ou resenha e vou marcando na minha lista de livros a ler. Depois acabo me esquecendo como foram parar lá. É o caso de Pergunte ao Pó.

Confesso que no começo achei a leitura um pouco arrastada. Pelo que entendi Fante influenciou vários autores da geração beat e não pude deixar mesmo de notar semelhanças entre esse livro e Tristessa, do Jack Kerouac (parte importante dessa geração) que resenhei aqui há algum tempo. É cru, visceral, triste e um pouco agonizante. Mais ou menos como a vida mesmo.  

De forma semelhante a Jack e Tristessa, Arturo é obrigado a ver Camila, objeto de seu amor, sofrer e definhar. É triste porque a moça se torna uma espécie de combustível para ele, a quem queremos ora abraçar ora descer a porrada. O protagonista é um tanto perdido e parece querer se encontrar para ajudar Camilla, que está ainda mais perdida do que ele.

Conforme vamos nos acostumando com o jeito de Arturo, seus momentos de ganância, grosseria, quando logo depois é o exato oposto, o romance pega um ritmo e se torna impossível de largar. Como eu me desesperei no trecho em que ele e Camilla vão à praia durante a noite e a moça parece ter sumido sob as ondas! Eu senti frio com eles, senti calor, senti até mesmo o mar. Ponto para o autor!

Mesmo sendo um drama – e não um dos leves – em alguns momentos me peguei rindo dos comentários aleatórios de Arturo, de seu sarcasmo e das situações em que ele se mete. E ri muito de nervoso também. Através dos olhos desse personagem, essa obra nos faz refletir sobre o amor, o sexo, os sonhos e a brevidade da vida.


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31 julho 2018

Anne of Ingleside, L. M. Montgomery.



*ALERTA SPOILER* Sexto livro da saga, portanto contém spoiler dos volumes anteriores.

“Anne é mãe de cinco crianças, sem um único momento de tédio em sua casa vivaz. E agora, com um novo bebê a caminho e a insuportável Mary Maria de visita – e desdenhando de sua hospitalidade – Anne está prestes a surtar. Ainda assim, a Sra. Doutora não consegue imaginar algum lugar onde preferisse estar que não sua amada Ingleside. Até que um dia ela começa a se preocupar que seu adorado Gilbert não a ame mais. Como pode ser? Ela pode estar mais velha, mas ainda é a mesma ruiva irreprimível e insubstituível – a maravilhosa Anne de Green Gables, uma mulher. Ela está pronta para fazer seu amado marido apaixonar-se por ela de novo”! | L. M. Montgomery – Bantam Books – 304 Páginas – Ano 1984 (Originalmente em 1939) – Literatura estrangeira, ficção, drama, romance, família.



Finalmente a história de Anne vai chegando ao seu final. Nesse volume, Anne de Ingleside - na tradução original – acompanhamos sua vida na nova casa e sua rotina como mãe de cinco crianças.  

Walter, Jem, Shirley e as gêmeas Nan e Di são crianças animadas, curiosas e muito obedientes - na medida do possível para um descendente de Anne Shirley, é claro. Temos a caminho também a bebê Rilla, que nasce no decorrer da história.

Se passam seis anos entre o começo e o fim da história e o que posso dizer é que Anne perdeu quase que totalmente o protagonismo. A maior parte do livro é focada em seus filhos e a vida da ruivinha gira em torno deles. Destaco aqui que se a perfeição de Anne já me desencantava um pouco, a de seus filhos é quase que inverossímil. Eles desobedecem e se metem em enrascadas e esta é uma das razões de eu ter me divertido mais nesse livro do que nos dois anteriores, mas todos – TODOS – são crianças extremamente maduras para sua idade, muito obedientes e compreensivas. Em um lar perfeito como o dos Blythe, isso é possível, porém acaba deixando tudo muito açucarado.

Não por isso, ainda temos trechos inspiradores que contam a doce passagem das estações, nos fazem contemplar a natureza e nos enchem de esperança, sobretudo no que diz respeito a mudanças. Nossa protagonista se vê numa crise quando sente que Gilbert não lhe dá a mesma atenção e mesmo isso é resolvido de forma simples e enfeitada. Achei que Anne estava sendo um tanto dramática aqui e que a sinopse dá mais importância ao assunto do que ele de fato tem.

Essa era para ser o último livro focado na agora Sra. Blythe, contudo ouso dizer que aqui os protagonistas já eram as crianças. As confusões em que eles se metem rendem boas risadas e lições, como sempre, mas senti muita falta dos personagens originais... Marilla, Rachel, Diana. Elas aparecem na história de forma breve.

Portanto nos despedimos oficialmente de Anne Blythe e vamos agora às aventuras de seus descendentes, com quem já pudemos nos familiarizar neste livro e nos encantar com a doçura e esperteza de cada um deles. É claro que, tendo pais como os deles, não poderia ser diferente.


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24 julho 2018

Laranja Mecânica, Anthony Burgess.


“Narrada pelo protagonista, o adolescente Alex, está brilhante e perturbadora história cria uma sociedade futurista em que a violência atinge proporções gigantescas e provoca uma resposta igualmente agressiva de um governo totalitário. A trama, que conta a história da violenta gangue de adolescentes que sai às ruas buscando divertimento de uma maneira um tanto controversa, incita profundas reflexões sobre temas atemporais, como o conceito de liberdade, a violência – seja ela social física ou psicológica – e os limites da relação entre o Estado e o Indivíduo. Ao lado de 1984, de George Orwell, e Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, Laranja Mecânica é um dos ícones literários da alienação pós-industrial que caracterizou o século 20”. | Anthony Burgess – Aleph – 352 Páginas – Ano 2012 (Originalmente em 1962) – Literatura estrangeira, romance, distopia.




Através de uma linguagem um tanto quanto diferenciada conhecemos, pelo anti-herói Alex, a história de sua juventude, dos delitos que praticava com seus druguis (amigos) e de como foi submetido a uma técnica de cura para a violência que o deixou indefeso perante a vida.

O clássico do cinema dos anos 70, dirigido por Stanley Kubrick e um dos meus filmes favoritos foi baseado nesse romance de Anthony Burgess. E eu não sei por que demorei tanto tempo para ler!!!

O livro aborda assuntos como a violência gratuita, a negligência, o totalitarismo e o respeito ao livre arbítrio. O protagonista Alex, um adolescente de 15 anos, após cumprir parte da pena por assassinato na prisão, é submetido a um tratamento que o impede de cometer qualquer ato violento. O mero pensamento gera nele um desconforto e uma dor física que parecem piores do que a morte. A partir disso refletimos acerca da questão: é válido privar um ser humano de sua liberdade de escolha, ainda que essa escolha seja a maldade?

Esse romance, classificado como distópico, é diferente de qualquer outro do gênero que eu já tenha lido e acredito que isso se dê (algo que ouvi no último fim de semana, no clube de leitura do qual participo) pelo fato de, ao contrário de Winston, Offred e Guy - protagonistas de 1984, O Conto da Aia e Fahrenheit 451, respectivamente - Alex ser o produto autêntico do meio em que vive, aquele produto que “deu certo”. E é impagável essa leitura de mundo por esse protagonista que não é flor que se cheire, é narcisista e se diverte com a dor alheia. Um sociopata completo.

Posso dizer que não só ele nos causa um misto de sentimentos, mas a leitura desse livro também causa um rebuliço de sensações e reflexões. É para ficar dias e dias matutando. Fucking horror show!

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17 julho 2018

Delírio, Lauren Oliver.


"Muito tempo atrás, não se sabia que o amor é a pior de todas as doenças. Uma vez instalado na corrente sanguínea, não há como contê-lo. Agora a realidade é outra. A ciência já é capaz de erradicá-lo, e o governo obriga que todos os cidadãos sejam curados ao completar dezoito anos. Lena Haloway está entre os jovens que esperam ansiosamente esse dia. Viver sem a doença é viver sem dor: sem arrebatamento, sem euforia, com tranquilidade e segurança. Depois de curada, ela será encaminhada pelo governo para uma faculdade e um marido lhe será designado. Ela nunca mais precisará se preocupar com o passado que assombra sua família. Lena tem plena confiança de que as imposições das autoridades, como a intervenção cirúrgica, o toque de recolher e as patrulhas-surpresa pela cidade, existem para proteger as pessoas. Faltando apenas algumas semanas para o tratamento, porém, o impensado acontece: Lena se apaixona. Os sintomas são bastante conhecidos, não há como se enganar — mas, depois de experimentá-los, ela ainda escolheria a cura? " | Lauren Oliver – Intrínseca – 352 Páginas – Ano 2012 (Originalmente em 2011) – Literatura estrangeira, romance, distopia, infantojuvenil.


Nos EUA do futuro o maior medo de Lena e de qualquer jovem de sua idade é a volta da praga amor deliria nervosa, uma doença que leva ao delírio e corrompe a alma humana. Por conta disso, os cidadãos passam por uma intervenção que promete livrá-los para sempre desse mal. Mas quando conhece Alex, Lena sente que tudo em que sempre acreditou talvez não seja exatamente verdade e que a dita perdição, mesmo com um preço, pode ser mais poderosa do que ela jamais imaginou.

Nem sei do que eu fujo mais: romances adolescentes ou distopias. Se juntar os dois então, corro mais que o diabo da cruz. Mas Delírio me chamou a atenção imediatamente quando eu descobri que o tema da vez era o amor. Achei muito curioso e me perguntei como seria uma sociedade vivendo sem esse sentimento.

Citando Game of Thrones: “quanto mais pessoas você ama, mais fraco você é” e me pareceu incrível e muito criativo imaginar um mundo onde o amor é proibido, porque te faz mesmo mais fraco, vulnerável e irracional. Deparando-nos com uma história assim confrontamos o poder desse sentimento... ali, naquela realidade, ele é o maior mal e inevitavelmente é o maior bem e a única forma de salvar a sociedade do que ela se tornou. As pessoas vivem entorpecidas e indiferentes e, para os transgressores, cuja punição é a morte, qualquer sentimento é melhor do que nenhum.

Esse tema pra mim é muito rico e me fez desejar que esse livro fosse mais adulto. A meu ver, o que o impede de ser um bom livro é o romance adolescente, que não foge dos clichês do gênero... tudo muito rápido e açucarado. Talvez, se eu tivesse dezesseis anos, fosse adorar. Mas não vou negar que o gostinho do proibido é bom em qualquer situação.

É inevitável para mim, que sou muito fã da série The Handmaid’s Tale (baseada no livro O Conto da Aia, que eu resenhei aqui), não relacionar as duas histórias. O amor, a paixão e qualquer tipo de afeto, mais cedo ou mais tarde, na visão dos ditadores, corrompem os seres humanos.

Apesar dos defeitos – que aqui se limitam a uma adulta chata tentando ler uma história que não foi feita pra ela - Delírio faz refletir, (até) suspirar e ter vontade de sair abraçando todo mundo. Um sentimento de: não deixem o amor morrer!

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10 julho 2018

Neardertal Procura Humano, Penny Reid.


“Depois de perder o namorado, o apartamento e o emprego no mesmo dia, Janie Morris não consegue deixar de imaginar o novo tormento que o destino reserva. Para sua completa mortificação, Quinn Sullivan - também conhecido como Senhor Calças-Quentes - testemunha tudo isso, então continua aparecendo como um par de sapatos que você deseja, mas não pode pagar. A última coisa que ela espera é que Quinn — o foco de suas levemente, ainda que inofensivas, tendências de perseguição — faça a ela uma oferta irrecusável” ... | Penny Reid – 3DEA – 300 Páginas – Ano 2018 (Originalmente em 2013) – Literatura estrangeira, romance.



Janie é formada em arquitetura, tem 26 anos e simplesmente não consegue conduzir uma conversa sem dar inúmeras informações desnecessárias (estatísticas e curiosidades no geral). Naquele que fica conhecido como o pior dia de sua vida ela é demitida do trabalho logo após romper com o namorado. Mas talvez nem tudo sejam lágrimas, já que o segurança mais lindo em quem ela já pôs os olhos vem para ajudar a escoltá-la. Mas espera... escolta pra quê?

Essa é uma das perguntas que buscamos responder durante a leitura. Nem Janie sabe por que foi demitida e, sinceramente, depois de conhecer Quinn Sullivan, o tal segurança, parece que todos os problemas ficam menores. Ele é misterioso, é verdade, mas muito atencioso e impossivelmente lindo. A doce e insegura Janie não acredita que esse tipo esteja realmente interessado nela. E foi por aí que a história me perdeu/prendeu.

Quando me deparei com esse nome, com essa capa fofa e essa sinopse, já havia construído o mais divertido dos chick-lits¹ na minha cabeça. Porém o primeiro volume da série não-contínua Clube do Tricô não faz parte desse gênero. É de fato um romance e só. A protagonista é sim divertida e peculiar, mas não nego que várias vezes são irritantes essa sua inocência e essa fala descontrolada sobre detalhes triviais, o que chegou a me deixar esperando uma explicação sobre algum tipo de distúrbio do qual ela sofre.

Apesar da escrita ágil e espirituosa, achei que a autora desperdiçou ótimos personagens, ou pelo menos ótimas características de personagens, numa história que não diz nada, não faz suspirar e nem torcer pelo casal. Eu não gosto de romances fáceis, especialmente se tratando de personagens com baixa autoestima e supostos deuses. Pra mim não cola. E é exatamente o que acontece aqui. Mesmo que, é claro, fique óbvio que Janie está mais do que dentro do dito padrão de beleza. Para completar, o romance começa tão rápido que não dá tempo de construir aquela tensão gostosa. Eu cheguei a torcer para que houvesse um grande plot twist² no final, revelando algo sobre o mocinho, que salvasse a história.

Outra coisa que em romances contemporâneos sempre me incomoda é o cara podre de rico, patrão de Deus e do mundo e a moça que não tem dinheiro pra pagar a conta, envolvidos. Acho que isso deixa a mocinha numa situação delicada e faz com que seja reforçado aquele estereótipo da mulher que precisa ser cuidada e sustentada. A mim não costuma agradar.

Mesmo assim o livro traz pontos positivos como o clube de tricô do qual Janie faz parte (ela não sabe tricotar) formado por várias mulheres muito diferentes. Uma delas é Elizabeth, colega de quarto de Janie que é médica e cuja história, de acordo com a pista dada pela protagonista, envolve um amor do passado. Já quero!

¹ Checklist é uma palavra em inglês, considerada um americanismo que significa "lista de verificações". Esta palavra é a junção de check (verificar) e list (lista). Uma checklist é um instrumento de controle, composto por um conjunto de condutas, nomes, itens ou tarefas que devem ser lembradas e/ou seguidas.

² Plot twist é uma mudança radical na direção esperada ou prevista da narrativa, uma reviravolta na história.

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03 julho 2018

Peter pan.


“Peter Pan quer ser eternamente menino. Na história criada pelo escritor escocês, J.M.Barrie, e publicada pela primeira vez no início do século XX, Peter e Sininho, a fada, levam seus amigos João, Miguel e Wendy para conhecer o lugar em que vivem, a Terra do Nunca, onde o tempo não passa. Uma sucessão de aventuras espera a turma. Eles vão conhecer a aldeia dos índios e os Meninos Perdidos, se deparar com um navio pirata e ter que enfrentar o temível Capitão Gancho. Uma história cheia de emoções e mensagens”. | J. M. Barrie – Zahar – 224 Páginas – Ano 2012 (Originalmente em 1911) – Literatura estrangeira, romance, infanto-juvenil.


É em uma noite “comum” em londrina que Peter Pan faz sua entrada pela janela dos Darling e leva com ele, voando, os irmãos Wendy, João e Miguel, que seguem o garoto para a Terra do Nunca, um lugar onde se é criança para sempre.

Acredito que todos conhecem a história do garoto que não queria crescer e que vive com a fada Sininho e os garotos perdidos numa terra misteriosa e cheia de aventuras. Esse clássico intemporal já foi adaptado inúmeras vezes e tem na animação de 1953 da Disney sua versão mais famosa.

O romance surgiu da peça de teatro do próprio autor intitulada Peter e Wendy, que conquistou os ingleses no começo do século XX. A mágica história do menino que sempre seria criança é um pouco mais séria do que nos mostrou a Disney.

A escrita do autor é bem dinâmica e seus personagens muito bem construídos. Barrie conversa com crianças, adolescentes e adultos, e traz em Peter significados que vão muito além do amor e do apego à infância, passando pelo medo, pela insegurança e pela solidão.

É maravilhoso voltar no tempo – à nossa própria infância, acompanhar as aventuras dos meninos perdidos contra o Capitão Gancho e mais ainda, refletir sobre como crescer tem seu lado bom e até mesmo necessário. Eu diria que J. M. Barrie morde e assopra. É uma leitura melancólica (se você for adulto, claro), mas sem dúvida indispensável para todas as idades.

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26 junho 2018

A noite dos mortos vivos e a volta dos mortos vivos, John Russo.


Se hoje os zumbis estão em alta é porque, em 1968, George Romero e John Russo se reuniram para escrever o roteiro de A Noite dos Mortos-Vivos e mudar a história do cinema. O filme revolucionou o mito sobre as criaturas que voltavam do além: as superstições vodus das velhas produções B deram lugar à epidemia de fome canibal nas ruas norte-americanas. Criaturas similares já haviam aparecido antes nas telonas, mas foi em A Noite dos Mortos-Vivos a primeira vez em que foram retratados como uma praga devoradora de carne humana. O próprio John Russo (que também atua no clássico de 1968 como um zumbi) adaptou a história do filme neste romance que a DarkSide trouxe para o Brasil. | John Russo – DarkSide Books – 320 Páginas – Ano 2014 (Originalmente em 1974) – Literatura estrangeira, romance, horror.




O livro é composto por duas histórias. Na primeira delas conhecemos os irmãos Bárbara e Johnny, que quando foram visitar o túmulo do pai, não imaginavam que o aparecimento de um homem que não corria e nem falava culminaria na morte de Johnny e na noite mais assustadora da vida de Bárbara.

Na segunda história, que se passa na mesma realidade dez anos depois dos acontecimentos da primeira, Bert Miller e suas três filhas precisam deixar às pressas o velório de uma criança para saírem em buscas dos mortos num acidente de ônibus que aconteceu ali perto, pois precisam enfiar uma estaca em suas cabeças antes que seja tarde.

O tipo de livro que não dá pra largar e dá aquele friozinho na espinha, por mais que se trate de um tema que, quando se fala de sustos e medo, seja visto como bobo. Não sei se por se tratar originalmente do roteiro de um dos melhores filmes de zumbis de todos os tempos, uma história bastante original, essa obra dá uma sensação de singularidade incontestável. Li menos livros de zumbis do que gostaria, mas nunca li nada parecido com esse, que é de longe o melhor! Não só os personagens, cenários e circunstâncias são interessantes, como a narrativa é eletrizante!

Fui sem nenhuma expectativa, porque livros de horror, ao menos na minha experiência, são difíceis de manter o ritmo e agradar no final. A Noite dos Mortos Vivos e A Volta dos Mortos Vivos cumpre o que promete. O livro, que foi adaptado pelo próprio roteirista do clássico de George Romero, merece cinco estrelas sem pestanejar!

Obs: Como sempre, a DarkSide Books reforçando qualquer experiência com essas edições lindas. Páginas pretas... adoro!





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19 junho 2018

O plano imperfeito.



“Harper (Zoey Deutch) e Charlie (Glen Powell) trabalham como assistentes para dois executivos em Manhattan. O temperamento e a dinâmica de seus chefes transformam suas vidas em um verdadeiro inferno. Desesperados e exaustos, os dois jovens se juntam para elaborar um plano um tanto quanto ousado: fazer com que os seus superiores se apaixonem e, dessa forma, os deixem mais tranquilos em relação ao trabalho”.

                                                    


Título: Set it Up
Direção: Claire Scanlon
Nacionalidade: Estados Unidos da América
Idioma original: Inglês
Gênero: Comédia romântica
Lançamento: 15 de junho de 2018
Duração: 1h45min.

Os assistentes de Kirsten (Lucy Liu) e Rick (Taye Diggs) passam por várias situações constrangedoras e difíceis tentando fazer tudo por seus chefes. Vivendo praticamente como babá, Harper (Zoey Deutch) suporta a chefe por admirá-la muito como profissional e ter a esperança de um dia ver um de seus artigos publicados pela famosa jornalista esportiva. Já Charlie (Glen Powell) se recusa a abandonar o emprego, porque tantos anos de dedicação total com certeza já estão lhe rendendo uma promoção à essa altura. E na tentativa de deixar os chefes mais felizes e, é claro, distraídos, que os dois se juntam numa missão nada fácil: fazer com que Kirsten e Rick se interessem um pelo outro e vivam um romance. 

Comédia romântica nova iorquina, esse é meu sobrenome e não tem nada nesse mundo que me deixe mais empolgada do que a espera pela estréia de um filme com essas características. Claro que eu amo todo filme deste gênero, e assim como eu, vocês não concordam que as clássicas cenas com multidões nas ruas, caminhadas pelo Central Park, takes do Empire State e corridas nos táxis amarelos até o aeroporto JFK tornam tudo muito mais charmoso?

O Plano Imperfeito, além de uma típica rom-com (abreviação de comédia romântica, do inglês romantic comedy) nova iorquina é uma rom-com raiz. A obra é uma história clichezinha, sem pretensão de ser inovadora, divertida e que sabe dosar comédia e romance. Glen Powell e Zoey Deutch têm muita química, são divertidos e extremamente carismáticos e isso também se aplica aos co-protagonistas. A presença da Lucy Liu no filme como a “chefe má” de Deutch só me deixou mais empolgada.

Obviamente o final está entregue desde a sinopse, afinal o que poderia acontecer com duas pessoas que tentam tão desesperadamente juntar outras? Contudo a comédia não é de todo clichê e eu mesma fiquei surpresa com alguns acontecimentos no final.

Desde 2011, com a estreia de Qual Seu Número? e O Noivo da Minha Melhor Amiga eu tenho esperado o lançamento de uma grande comédia romântica (com grande quero dizer que não essas feitas para pequenos canais de TV americanos). O filme dirigido por Claire Scanlon cumpre essa expectativa e é a comédia romântica mais hollywoodiana dos últimos anos (com exceção de Como Ser Solteira, talvez), porém peca num único aspecto: em algumas cenas podemos ver claramente os pedestres ao fundo encarando a câmera. Falta de atenção ou de cuidado? Não sei, mas é fato que economizaram na figuração. De qualquer forma, nada que atrapalhe a experiência.

O Plano Imperfeito é um filme despretensioso, que cumpre com sua missão de distrair, fazer sorrir e suspirar do começo ao fim.

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13 junho 2018

A paixão segundo G. H., Clarice Lispector.



A escultora G.H. nos conta sua experiência vivenciada a partir do instante em que entra no quarto da ex-empregada, vê o surgimento de uma barata no guarda-roupa e a esmaga na porta. Daí em diante, tomada por uma mistura de medo e repulsa, G.H. vive com a barata durante horas e horas a sensação de ter perdido a sua "montagem humana". A incapacidade de dar forma ao que lhe aconteceu, a aceitar este estado de perda, a leva a imaginar que alguém está segurando a sua mão. Desta maneira, o leitor passa a viver junto com a personagem esta experiência singular. | Clarice Lispector – Editora Rocco – 180 Páginas – Ano 1998 (Originalmente em 1964) – Literatura brasileira, romance.


Ao ficar sem a empregada, uma mulher identificada como G.H. resolve fazer uma faxina na casa, começando pelo quarto de serviço, essa dona de casa da burguesia se depara com a estranheza de um local que foi modificado por aquela que o ocupava. Ela percebe que não conhecia de fato aquele canto de sua própria casa e é no confronto – pois podemos assim chamar – com uma barata, que irá refletir sobre as percepções que tem sobre a vida, a morte, o ser humano e a paixão.

Dessa vez encaramos um cenário muito diferente do que nos traz Macabéa. Ao contrário daquela, nossa protagonista é uma mulher que vive no conforto e está acostumada a certas mordomias. Além disso, a história nos é apresentada na estrutura de fluxo de consciência.

Clarice não se prende a reflexões rasas ou mesmo a um sentido., pois a moça logo que vê um inseto se assusta, pois é asqueroso para ela. Temos acesso a toda e cada sensação que acomete a personagem ao encarar uma “antiga” inimiga. A intensificação dos fatos fica ainda mais grave quando a mulher decide matá-la, e o choque vem quando do alto de sua contemplação e de seus devaneios, G.H. decide provar do caldo branco liberado pelo bicho.

A Paixão Segundo G.H. parece simplista num primeiro olhar, por apresentar meramente o cotidiano banal, e de certa forma é realmente isso. A vida como ela é: bagunçada, confusa, curiosa e visceral.


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